sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Anatomia feminina: o corpo vivo de Anayde Beiriz – Iranilson Buriti



Pós doutor em História das Ciências e da Saúde
Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco
Pesquisador e bolsista ad hoc do CNPq
Professor da disciplina de Paraiba II

                O cenário nacional que recepcionava o modernismo, era um terreno fértil para idéias progressistas, apesar de uma grande parcela da população ainda estar mergulhada no tradicionalismo moralista, algumas pessoas corajosas em suas vontades, rompiam a barreira imposta a sociedade e anunciavam novos ares, novos modos de pensar, novos modos de ser.


            Anayde Beiriz se encaixa nesse novo modo de ser em todas as formas, como demonstra o professor no artigo, que utiliza o corpo de Anayde como uma metáfora para recepção dos signos e instrumentos do moderno. Ele aponta então o conjunto de novas formas de se inscrever no corpo uma nova identidade: o cabelo a la garçonne, o batom Michel e as maquiagens Blenol e Dermon. Compreendemos então que eram esses os produtos que demarcavam pela propaganda o espaço da mulher que queria se diferenciar, que queria se afastar do “passado sem cor”.
            Mas também haviam contradições nessa sociedade, se por um lado os novos produtos era adornados de bons adjetivos, algumas mulheres que ousavam mudar, que não permaneciam nas regras morais da sociedade eram julgadas e sofriam sanções. Anayde como uma das mais exemplares dessas mulheres também as sofrera, foi impedida de lecionar no colégio que se formara porque não encorporava a disciplina “necessária” para uma professora, não controlava suas paixões e não negava o seu corpo. Esses motivos foram suficientes para demarcar em Anayde, aos olhos da sociedade da época, uma aparência vulgar.
            Anayde não queria permanecer no espaço que  lhe era destinado: ser uma boa mãe e uma boa dona-de-casa. Preferiu antes transgredir os limites e pintar os novos espaços políticos em seus escritos. Aproveitava-se de sua voz consciente e transformadora para anunciar e desejar a mudança no tratamento para com a mulher, esta deveria agora ocupar o espaço político. Essa opnião era pesada demais para uma sociedade machista que reprimia as expressões femininas que lhe fugisse ao controle. Anayde discutiu muitas vezes por seus ideais, dentre essas discussões  algumas se travaram com seu amante João Dantas, que era de uma opinião política adversa da de Beiriz. Mas mulher hábil que era, soube se locomover por essas tecituras com maestria, sem se curvar e abandonar seus ideais, nem em nome do seu amor.
            Sofria então por conviver em uma sociedade vigilante, que tenta docilizar os corpos femininos, delimitar seus espaços, disciplinar seus desejos, mas que de modo algum conseguiu normatizá-la.
            Não podendo lecionar no colégio que se formou, foi ensinar em Cabedelo aos pescadores. Posição que era recusada por outras professoras que não queriam ser mal vista, pois até o locomover-se para o feminino nessa sociedade era digno de suspeita. A mulher tinha que estar sempre em vigilância.
            É marcante no artigo o paralelo entre as concepções políticas e pessoas de Anayde Beiriz e João Pessoa, que a história entrecruzou de forma trágica. Mostrando a ironia que consistia por trás do progressismo político de João Pessoa mas no seu moralismo que queria se apegar ao passado  enquanto que Anayde se pautava no amor e na liberdade.

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