É comum em
algumas análises e versões da história uma apreensão da realidade na forma de
uma trama, com todos os recursos que se assemelham ao romance ficcional: o
desenvolvimento da narrativa de modo intricado, com começo, meio e fim; os
personagens com os seus papéis definidos previamente; o narrador onisciente que
construindo sua narrativa teleológica parece cortar os personagens e sondar
seus pensamentos. A idéia da trama possui em sim uma aceitação rápida por parte
de alguns leitores, deixando cada vez mais claro na medida que o narrador
desenvolve a narrativa, a aproximação do seu final como necessariamente único,
como um destino que os personagens deveriam percorrer, afinal esse era o papel
deles na história.
O filme de
Tizuka Yamazaki é nesse viés bastante emblemático e já nas primeiras cenas nos
deparamos, enquanto ainda aparecem os créditos, com uma mão feminina que rasga
uma fita de um véu preto. Podemos ver e ouvir por esse véu apesar de ser
difícil identificar com certeza do que se trata. Seria a mão feminina uma
denotação da particularidade analítica do filme, que tenta entender as dadas
condições políticas sob a ótica de Anayde? Se for tal caso, abundam na
narrativa as contraposições dessa natureza, onde o privado e pessoal
intercalam-se com o cenário político nacional. Pequenos posicionamentos podem
então definir um cenário de revolução que acontece em uma escala maior. Mas
essa não é a preocupação central do filme que termina justamente com o
“estopim” da revolução.
Do que se
trata então?
As
preocupações evidentes se referem à construção do “personagem” Anayde, que já
nas primeiras cenas é apresentada nua perante à sociedade que grita frases
moralistas: “Olha lá pessoal, a rapariga
do João Dantas”, “Matem eles”, ”É o fim do mundo”. A sensualidade da
professora Anayde que será calmamente abordada na sequencia narrativa é
apresentada em sua depravação e reprovação pela sociedade. Não se trata mais de
um amor particular que ela nutria por “Dantinhas”, trata-se agora de crime
moral. Os closes e as aplicações de zoom da câmera nas partes íntimas de Anayde que estavam
expostas em fotografias para todos verem indica bem as condições absurdas da
situação.
Nos tornamos
então conscientes da interpretação que a sociedade fez do romance do casal.
A forma como
ela procura se mostrar, em suas roupas, seu jeito de andar, seu corte de
cabelo, eram formas que agrediam visual e moralmente a sociedade. Anayde estava
consciente disso mas não se sujeitava, utilizando sua escrita, expôs suas
visões políticas libertárias e pretendia a partir delas modificar o meio em que
vivia, criticar o espaço delimitado às mulheres na época.
O filme
enfatiza o lado sensual de Anayde em muitos aspectos, e interliga os diferentes
papéis dela como professora, amante, escritora sem desvincular essa forma de
ser em nenhum desses. Em um dos poucos momentos que seu amante Dantas,
permitiu-se conversar sobre política com ela ocorreram atritos, já que os dois
defendiam perspectivas diferentes a cerca dos rumos da paraíba.
O trágico e
irônico final onde apenas dedicada ao amor ela consegue, sem ter a intenção, mudar o curso político da
Paraíba, e ficar marcada na sociedade, ao menos durante o “calor dos fatos” de
forma negativa, como já argumentamos. É nas cenas finais que encontramos a
maestria de um leve simbolismo, quando Anayde que inscrevia em seu corpo as
formas modernas – o cabelo, o verstir-se, e também o pensar – abre mão de alguns
simbolos femininos, enquanto caminha durante a revolução. O seu amor já está
morto, e lentamente ela caminha, jogando fora o seu perfume, o encharpe e a
bolsa. E aparece a informação de que dias depois ela foi encontrada morta, e a
diretora termina homenageando aqueles que lutam
pelo direito de escolher o próprio destino”.
Concluo este
argumento como o poeta no desfecho do filme, que cantando em versos se
pronuncia: Nos terremotos do drama / Que
abalava o país / Se enxerga a luz da chama/ De Anayde Beiriz / Pois das lições
do passado /Fica um exemplo guardado / Fica um rosto fica um nome / É algo que
permanece / Que a memória não esquece / E o pó da terra não come.Baixar o filme por Torrent: Tizuka Yamazaki


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