sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Parahyba Mulher Macho – Tizuka Yamazaki






É comum em algumas análises e versões da história uma apreensão da realidade na forma de uma trama, com todos os recursos que se assemelham ao romance ficcional: o desenvolvimento da narrativa de modo intricado, com começo, meio e fim; os personagens com os seus papéis definidos previamente; o narrador onisciente que construindo sua narrativa teleológica parece cortar os personagens e sondar seus pensamentos. A idéia da trama possui em sim uma aceitação rápida por parte de alguns leitores, deixando cada vez mais claro na medida que o narrador desenvolve a narrativa, a aproximação do seu final como necessariamente único, como um destino que os personagens deveriam percorrer, afinal esse era o papel deles na história.
Por certo, tal escolha narrativa nos coloca em cheque com o real. Nos sentimos em débito quando, de outra forma, tomamos conhecimento das multiplas facetas dos  “personagens”, da complexa rede de associações que eram afetadas por suas escolhas, das contraposições do ambito privado e público, nacional e local. Como uma espécie de véu que é rasgado para que possamos ver através, a historieta em forma de trama já não possui para nós tanta serventia. De fato percebemos até que ela dificulta o nosso olhar cortante, que pretende abranger o real.


O filme de Tizuka Yamazaki é nesse viés bastante emblemático e já nas primeiras cenas nos deparamos, enquanto ainda aparecem os créditos, com uma mão feminina que rasga uma fita de um véu preto. Podemos ver e ouvir por esse véu apesar de ser difícil identificar com certeza do que se trata. Seria a mão feminina uma denotação da particularidade analítica do filme, que tenta entender as dadas condições políticas sob a ótica de Anayde? Se for tal caso, abundam na narrativa as contraposições dessa natureza, onde o privado e pessoal intercalam-se com o cenário político nacional. Pequenos posicionamentos podem então definir um cenário de revolução que acontece em uma escala maior. Mas essa não é a preocupação central do filme que termina justamente com o “estopim” da revolução.
Do que se trata então?
As preocupações evidentes se referem à construção do “personagem” Anayde, que já nas primeiras cenas é apresentada nua perante à sociedade que grita frases moralistas: “Olha lá pessoal, a rapariga do João Dantas”, “Matem eles”, ”É o fim do mundo”. A sensualidade da professora Anayde que será calmamente abordada na sequencia narrativa é apresentada em sua depravação e reprovação pela sociedade. Não se trata mais de um amor particular que ela nutria por “Dantinhas”, trata-se agora de crime moral. Os closes e as aplicações de zoom da câmera  nas partes íntimas de Anayde que estavam expostas em fotografias para todos verem indica bem as condições absurdas da situação.
Nos tornamos então conscientes da interpretação que a sociedade fez do romance do casal.
Yamazaki retoma por pequenas cenas, alguns momentos da infância de Anayde, onde ela (Anayde) é apresentada com sua vaidade e sua falta de preocupação com o castigo paterno, religioso e educacional. A importancia de tal ambientação cinematográfica se esclarece quando tomamos conhecimento de que esses eram os meios de propagação dos valores morais tradicionalistas, como prefere o professor Iranilson Buriti, eram formas de inscrever no corpo - especialmente no corpo feminino – sua sina. Ela deveria obedecer aos pais, para aprender a viver em uma sociedade machista e paternalista; deveria reconhecer a autoridade religiosa para não abandonar os preceitos morais entendidos como bons costumes, como práticas aceitáveis e deveria por fim aceitar a dominação e o controle de seus instintos, a normatização de seu corpo que a escola efetua. Mas em todas essas situações ela ainda prefere não abrir mão de quem ela era e de seus ideais, mesmo que com isso perca algumas coisas, como por exemplo, o desejado cargo de professora no colégio em que se formou.
A forma como ela procura se mostrar, em suas roupas, seu jeito de andar, seu corte de cabelo, eram formas que agrediam visual e moralmente a sociedade. Anayde estava consciente disso mas não se sujeitava, utilizando sua escrita, expôs suas visões políticas libertárias e pretendia a partir delas modificar o meio em que vivia, criticar o espaço delimitado às mulheres na época.
O filme enfatiza o lado sensual de Anayde em muitos aspectos, e interliga os diferentes papéis dela como professora, amante, escritora sem desvincular essa forma de ser em nenhum desses. Em um dos poucos momentos que seu amante Dantas, permitiu-se conversar sobre política com ela ocorreram atritos, já que os dois defendiam perspectivas diferentes a cerca dos rumos da paraíba.
O trágico e irônico final onde apenas dedicada ao amor ela consegue, sem  ter a intenção, mudar o curso político da Paraíba, e ficar marcada na sociedade, ao menos durante o “calor dos fatos” de forma negativa, como já argumentamos. É nas cenas finais que encontramos a maestria de um leve simbolismo, quando Anayde que inscrevia em seu corpo as formas modernas – o cabelo, o verstir-se, e também o pensar – abre mão de alguns simbolos femininos, enquanto caminha durante a revolução. O seu amor já está morto, e lentamente ela caminha, jogando fora o seu perfume, o encharpe e a bolsa. E aparece a informação de que dias depois ela foi encontrada morta, e a diretora termina homenageando aqueles que lutam pelo direito de escolher o próprio destino”.
Concluo este argumento como o poeta no desfecho do filme, que cantando em versos se pronuncia: Nos terremotos do drama / Que abalava o país / Se enxerga a luz da chama/ De Anayde Beiriz / Pois das lições do passado /Fica um exemplo guardado / Fica um rosto fica um nome / É algo que permanece / Que a memória não esquece / E o pó da terra não come.



Baixar o filme por Torrent: Tizuka Yamazaki

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