RESENHA:
O artigo “Entre
cartas e declarações de amor: A escrita de si de Anayde Beiriz”, escrito por Alômia Abrantes, que é professora
adjunta da UEPB, campus III. Doutora em História pela UFPE. Graduada em
História e Comunicação pela UFPB, faz parte da discussão que compõe a tese de
doutoramento desta, intitulada “Paraíba
Mulher Macho: tessituras de gênero, desafios da história”, defendida em 2008, e que inspirou
também o Projeto de Iniciação Científica intitulado “Gênero e sexualidade na
escrita de si de Anayde Beiriz”. Alômia Abrantes atua sob as seguintes linhas
de pesquisa: Cultura, Subjetividades e Linguagem e História e estudos
Culturais: crença, gênero e sexualidade.
No referido artigo, a autora usa como
referências, além de sua tese[1],
nomes como Michel Foucault, José Joffily, Marcus Aranha e Mary Del Priore,
dentre outros, para falar um pouco a respeito da figura que Anayde Beiriz
representou na sociedade paraibana no início do século XX, destacando
principalmente o que condiz com a sexualidade de Anayde e como essa sexualidade
marcou a sua imagem, causando bastante polêmica, e construindo as múltiplas
faces desta que foi, além de uma grande mulher, normalista[2],
poeta e amante das artes.
Alômia Abrantes começa seu artigo citando o filme “Parahyba
Mulher Macho”, dirigido por Tizuka Yamazaki, na década de 1980, e de como esse
filme retrata a figura de Anayde Beiriz, cuja memória liga-se aos eventos que
culminaram na “revolução de 1930”. O filme foi inspirado no livro “Anayde:
Paixão e Morte na Revolução de 30”, de José Joffily. Na sua obra a historiadora
Alômia faz uma crítica à visão que o dito filme traça de Anayde. Segundo
Abrantes, os tons trágicos que aparecerem representados na
narrativa cinematográfica constituindo uma Anayde romântica e
libidinosa, altiva e ousada, que desagradou a uma grande platéia na Paraíba,
causou muita polêmica, inclusive no que diz respeito à fidedignidade a quem, de
fato, fora Anayde Beiriz.
A partir daqui, a autora vai desenvolver seu
trabalho baseada no livro publicado em 2005, composto pela transcrição de um
conjunto de cartas amorosas, trocadas entre Anayde Beiriz e Heriberto Paiva, a
quem Anayde namorou antes de João Dantas. Tais cartas foram cedidas à Marcus
Aranha, que por sua vez produziu a obra “Anayde
Beiriz: Panthera dos Olhos Dormentes”, que retrata uma história de Anayde
buscando desmitificar a construção feita pelo filme de Tizuka Yamazaki, que diz
Alômia Abrantes, desde o seu título já é construído de forma ofensiva e
deturpadora.
Alômia Abrantes prossegue destacando que tomar a
escrita de Anayde como uma fonte para a análise da construção da sua
subjetividade, uma “escrita de si”, acaba por nos permitir problematizar
questões que dizem respeito à época dela e ao que a liga ao nosso tempo. E aqui
a autora faz despertar no leitor essa curiosidade de ir em busca dessas
questões que vão muito além da simples exposição do corpo e da sexualidade
dessa personagem da nossa história, e à adentrar nesse universo de
possibilidades e sentimentos e do cotidiano da “vida ordinária” , assim como
compreender como a vida de Anayde, bem como sua sexualidade, fortemente
expressa nas suas cartas, possibilita-nos a compreender a experiência do
feminino numa época onde houve o que o historiador Iranilson Buriti chama de
“reinado do moralismo”[3],
onde as mulheres, símbolos da nação, deveriam ser sadias mental e fisicamente,
não dadas aos excessos, mas pacata, silenciosa e introspecta. O que ia em
contradição com os atitudes e desejos vividos por Anayde Beiriz.
[1]
SILVA,
Alômia Abrantes da. Paraíba
Mulher-Macho: Tessituras de Gênero, (Desa)fios da História. 2008. Tese (
Doutado em História). Programa de Pós-Gradução em História. Universidade
Federal de Pernambuco, Recife.
[2]
Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João Pessoa. Diplomou-se pela
Escola Normal em 1922, com apenas 17 anos, destacando-se como primeira aluna da
turma.
[3]
Para mais informações ler o artigo “Anatomia feminina: o corpo vivo de Anayde
Beiriz”, do Profº. Dr. Iranilson Buriti.
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