quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Entre cartas e declarações de amor: A escrita de si de Anayde Beiriz




RESENHA:

O artigo “Entre cartas e declarações de amor: A escrita de si de Anayde Beiriz”, escrito por Alômia Abrantes, que é professora adjunta da UEPB, campus III. Doutora em História pela UFPE. Graduada em História e Comunicação pela UFPB, faz parte da discussão que compõe a tese de doutoramento desta, intitulada “Paraíba Mulher Macho: tessituras de gênero, desafios da história”, defendida em 2008, e que inspirou também o Projeto de Iniciação Científica intitulado “Gênero e sexualidade na escrita de si de Anayde Beiriz”. Alômia Abrantes atua sob as seguintes linhas de pesquisa: Cultura, Subjetividades e Linguagem e História e estudos Culturais: crença, gênero e sexualidade.



No referido artigo, a autora usa como referências, além de sua tese[1], nomes como Michel Foucault, José Joffily, Marcus Aranha e Mary Del Priore, dentre outros, para falar um pouco a respeito da figura que Anayde Beiriz representou na sociedade paraibana no início do século XX, destacando principalmente o que condiz com a sexualidade de Anayde e como essa sexualidade marcou a sua imagem, causando bastante polêmica, e construindo as múltiplas faces desta que foi, além de uma grande mulher, normalista[2], poeta e amante das artes.

Alômia Abrantes começa seu artigo citando o filme “Parahyba Mulher Macho”, dirigido por Tizuka Yamazaki, na década de 1980, e de como esse filme retrata a figura de Anayde Beiriz, cuja memória liga-se aos eventos que culminaram na “revolução de 1930”. O filme foi inspirado no livro “Anayde: Paixão e Morte na Revolução de 30”, de José Joffily. Na sua obra a historiadora Alômia faz uma crítica à visão que o dito filme traça de Anayde. Segundo Abrantes, os tons trágicos que aparecerem representados na narrativa cinematográfica  constituindo uma Anayde romântica e libidinosa, altiva e ousada, que desagradou a uma grande platéia na Paraíba, causou muita polêmica, inclusive no que diz respeito à fidedignidade a quem, de fato, fora Anayde Beiriz.

A partir daqui, a autora vai desenvolver seu trabalho baseada no livro publicado em 2005, composto pela transcrição de um conjunto de cartas amorosas, trocadas entre Anayde Beiriz e Heriberto Paiva, a quem Anayde namorou antes de João Dantas. Tais cartas foram cedidas à Marcus Aranha, que por sua vez produziu a obra “Anayde Beiriz: Panthera dos Olhos Dormentes”, que retrata uma história de Anayde buscando desmitificar a construção feita pelo filme de Tizuka Yamazaki, que diz Alômia Abrantes, desde o seu título já é construído de forma ofensiva e deturpadora.

Alômia Abrantes prossegue destacando que tomar a escrita de Anayde como uma fonte para a análise da construção da sua subjetividade, uma “escrita de si”, acaba por nos permitir problematizar questões que dizem respeito à época dela e ao que a liga ao nosso tempo. E aqui a autora faz despertar no leitor essa curiosidade de ir em busca dessas questões que vão muito além da simples exposição do corpo e da sexualidade dessa personagem  da nossa história, e à adentrar nesse universo de possibilidades e sentimentos e do cotidiano da “vida ordinária” , assim como compreender como a vida de Anayde, bem como sua sexualidade, fortemente expressa nas suas cartas, possibilita-nos a compreender a experiência do feminino numa época onde houve o que o historiador Iranilson Buriti chama de “reinado do moralismo”[3], onde as mulheres, símbolos da nação, deveriam ser sadias mental e fisicamente, não dadas aos excessos, mas pacata, silenciosa e introspecta. O que ia em contradição com os atitudes e desejos vividos por Anayde Beiriz.



[1] SILVA, Alômia Abrantes da. Paraíba Mulher-Macho: Tessituras de Gênero, (Desa)fios da História. 2008. Tese ( Doutado em História). Programa de Pós-Gradução em História. Universidade Federal de Pernambuco, Recife.
[2] Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal em 1922, com apenas 17 anos, destacando-se como primeira aluna da turma.
[3] Para mais informações ler o artigo “Anatomia feminina: o corpo vivo de Anayde Beiriz”, do Profº. Dr. Iranilson Buriti.

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